O México passou a caminhar numa verdadeira corda bamba diplomática depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou impor tarifas a países que enviam petróleo a Cuba.
Como parceiro comercial estratégico dos EUA e, ao mesmo tempo, fornecedor crucial de petróleo para Cuba, o México pode ser duramente afetado pelas tarifas caso mantenha o fornecimento de petróleo para a ilha caribenha.
Na sexta-feira, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, alertou que as tarifas poderiam “desencadear uma crise humanitária de grandes proporções” em Cuba, afetando hospitais, o abastecimento de alimentos e outros serviços.
Ela, no entanto, não disse se o país cortaria as exportações, que em 2025 representaram 44% do fornecimento externo de petróleo de Cuba.
Em vez disso, afirmou que seu governo pedirá aos EUA esclarecimentos sobre o alcance das tarifas de Trump e, ao mesmo tempo, buscará formas alternativas de ajudar Cuba, que já enfrenta apagões frequentes devido a uma crise energética.
“É claro que não queremos correr o risco de novas tarifas contra o México, mas, por meio de canais diplomáticos, buscamos um diálogo e um marco de comunicação que evite uma situação grave para o povo cubano”, disse Sheinbaum, que já havia descrito as exportações de petróleo como “uma decisão soberana” da estatal Pemex.
Na quinta-feira, Trump assinou uma ordem executiva ameaçando impor as tarifas. No documento, declarou “emergência nacional” e afirmou que ações do governo cubano constituem uma “ameaça incomum e extraordinária”.
Embora os EUA tenham um longo histórico de tentativa de mudança de regime em Cuba, país governado por um sistema político socialista desde 1961, o governo Trump aumentou a pressão nas últimas semanas.
Em comunicado anunciando as tarifas, o governo acusou o regime cubano de se alinhar a “países hostis e atores malignos” e de abrigar capacidades militares e de inteligência desses países — incluindo, segundo o texto, a maior instalação de inteligência de sinais da Rússia no exterior. Também acusou Havana de oferecer refúgio a grupos terroristas como Hezbollah e Hamas e de fomentar o “caos ao disseminar a ideologia comunista”.
Dentro do gabinete de Trump, um dos principais defensores da mudança de regime é o secretário de Estado Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, que cresceu politicamente imerso na comunidade de exilados em Miami, em um ambiente onde as memórias da ilha e o profundo temor ao socialismo sempre foram forças marcantes.
Cuba alerta para condições extremas de vida
O governo cubano condenou na sexta-feira a ameaça de tarifas de Trump, afirmando que, se aplicadas, submeteriam a população da ilha a condições extremas de vida.
Os cubanos já enfrentam apagões constantes e longas filas nos postos de combustíveis devido à escassez de combustível. Autoridades cubanas afirmam que as atuais sanções econômicas dos EUA são em grande parte responsáveis pela crise no setor energético, embora críticos também apontem a falta de investimentos do governo em infraestrutura.
Nos últimos dias, tanto os apagões quanto as filas por combustível se intensificaram em toda a ilha. Grandes áreas de Havana ficam completamente às escuras todas as noites, semáforos frequentemente deixam de funcionar em cruzamentos importantes, e diversas emissoras de rádio e TV estatais suspenderam as operações por falta de eletricidade e combustível para operar geradores.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou que as ameaças de Trump são feitas sob um “pretexto vazio” e acusou o presidente americano de tentar “asfixiar” a economia cubana.
“Essa nova medida demonstra o caráter fascista, criminoso e genocida de uma camarilha que sequestrou os interesses do povo americano para ganhos puramente pessoais”, declarou.
O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, acusou os EUA de tentar chantagear e coagir outros países a aderirem ao que classificou como um “bloqueio total” do fornecimento de combustíveis.
Repetindo a linguagem da ordem executiva de Trump, Rodríguez disse que Cuba está declarando uma “emergência internacional”, embora não tenha especificado o que isso implicaria.
O fator Venezuela
Assim como o México, a Venezuela também se vê encurralada pela ameaça de tarifas.
Até recentemente, o país fornecia mais de um terço das necessidades de petróleo de Cuba, segundo analistas do setor energético.
Esses fornecimentos foram interrompidos após a captura, pelo Exército dos EUA, do ditador venezuelano Nicolás Maduro no início deste mês, quando Trump afirmou que os EUA assumiriam o controle das reservas de petróleo do país.
Embora Delcy Rodríguez, que era vice de Maduro, esteja à frente do governo como presidente interina, não está claro quanto espaço ela tem para resistir à pressão dos EUA.
Ela atendeu a várias exigências de Washington, incluindo a abertura do setor petrolífero a empresas estrangeiras e a libertação de todos os cidadãos americanos conhecidos que estavam detidos no país.
Mesmo assim, o governo venezuelano se juntou a Cuba na condenação da ordem executiva de Trump, classificando-a como uma violação do direito internacional e expressando solidariedade ao povo cubano.
“O livre comércio é um princípio fundamental das relações econômicas internacionais entre Estados soberanos e não pode estar sujeito a qualquer tipo de coerção que impeça a livre troca de bens e serviços”, afirmou o governo venezuelano na sexta-feira.
Análise: Trump amplia pressão sobre Cuba após captura de Maduro | CNN PRIME TIME
